quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Samurai Boe - Saudade Boa

Foto: Ana Clara

Agora, mais do que nunca, todos precisaram de um encorajamento, para sabermos que não estamos sozinhos. Todos nós provavelmente tivemos um segundo onde paramos para encarar um espelho e sentir dúvidas, imaginando se alguém mais teve esses momentos também. No seu álbum de estreia (talvez único), Samurai Boe fornece o impulso de encorajamento muito necessário em um formato de autoconsciência, beleza e abraço em cada parte de você, mesmo as partes que você ainda não descobriu.

Saudade Boa  é uma festa, uma cheia de confetes, balões de cores vivas e os sons do lo-fi mais divertido, bem-aventurado e desleixado que você já ouviu. Um foguete em uma garrafa de refrigerante pop que ilumina o céu e enche seu coração. Ao longo de toda a diversão interminável, há também uma promessa para alguém, uma exibição completa de pensamentos e sentimentos pessoais; um lembrete para nunca pedir desculpas por quem você é. Sentimento suavizado através das névoas desoladas de memória e amor perdido.

Como o verão começa a brilhar diante de nós e as flores são derramadas das árvores exuberantes da primavera, o disco destila essa sensação de nostalgia para as tardes simples, onde esse rico sabor do primeiro amor sempre permanece o mais doce na memória. A triste reticência de uma guitarra sente-se como um raio de sol, como saudade derretida em música. O clímax das canções desaparece rapidamente em um pedaço agudo de emoção presa e é essa recusa de mais indulgência que preserva uma sensação de beleza fresca e passageira, um brilho que se torna tênue e brilhante, um amor ao mesmo tempo complexo e deliciosamente simples. Uma saudade boa. 

ABC Love e o Álbum do Prazer quer te levar ao êxtase

Idealizado pelo misterioso Gevard - um velho que, vez ou outra vaga pelas ruas em busca de novas emoções - o grupo acaba de lançar seu primeiro álbum, ABC Love e o Álbum do Prazer. O disco será apresentado na íntegra e ao vivo no dia 16 de setembro, sábado, no Estúdio Lâmina (São Paulo), a partir das 23h.

O som da banda traz sensações, é como se uma neblina rasa tomasse conta do espaço, transportando o ouvinte para uma sala de luz avermelhada, com sussurros e ecos. É esse o universo de ABC Love: vulgar e elegante, quente e sombrio. “Aqui, os opostos transam num equilíbrio hermético que só se torna possível onde não há culpas”, conta Gevard. Segundo ele, o Álbum do Prazer é um acerto de contas entre o amor e o sexo. “Todo desejo deve ser atendido. O prazer das profundezas deve ganhar a superfície, senão estaremos eternamente presos a ele”, completa. Com referências que vão de Serge Gainsbourg à Ariel Pink, de pornochanchada à Daft Punk, ABC Love e o Álbum do Prazer é um lançamento do selo paulistano Balaclava Records.

Nesse tom provocativo, o personagem Gevard rege sua obra questionando os padrões e o ser em faixas como “Modéle” e “Quem é você?”; montando roteiros trash porn em canções como “Noite Quente” e “Carne Viva” - ambas ganharam videoclipes com estética retrô - ou cenas elegantes como em “Le Petit Etoile” e “Caminhos do Prazer”. Bateria, cordas e teclas fazem uma mistura de amor e sexo. Momentos de pressão e conquista, outros de mistério e sutilezas, exigem que seu público trabalhe os tabus sem medo para apreciação total de um disco que é deliciosamente estranho. A única questão que restará no final é: quem é você?

Capa: Aline Paes 

Oruã - Sem Benção / Sem Crença

Foto: Igor Freitas Lima

Perdoando um pouco esse conceito não pensado, a maioria das músicas provavelmente pode se separar em três canais diferentes: ideias fictícias, pensamentos construídos depois e pensamentos capturados muito no momento. O disco de estreia da Oruã é uma coleção de músicas que agregam diversas possibilidades, as músicas foram construídas e, em seguida, embebidas no epicentro das experiências que as moldaram.

Uma das trilhas sonoras mais sutis para esta ponte entre o final do verão e além, o álbum é uma exibição tênue de músicas estranhas, aparentemente esculpidas na cabeça radiofônica de alguém e apresentada, delicadamente, aos que tiveram a sorte de tropeçar no brilho bonito que ressoa de dentro.

Gravado 99% no Escritório, 'Sem Benção / Sem Crença' é uma seta espinhosa, que parece entrar no quarto, proclamando tudo o que pode antes mesmo de começar a pensar sobre como tomar seus arredores. Criado como um registro que "procura tanto romantismo quanto trivialize o companheirismo e a introversão experimental", o empurrão-e-repuxo que essas noções alcançam está presente, as músicas ocasionalmente reclináveis ​​só para permitir momentos de respiração antes que eles se desviem de novo, desarmado e desequilibrado, e ainda mais atraente para isso.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Aeroplano - Animal Sensacional




























Quando você realmente pensa sobre isso, a música tem uma enorme quantidade de energia. De aumentar nossas emoções para nos fazer passar por dias ruins, trazendo-nos juntos e dizendo todas as coisas que não podemos, a música é uma força. E neste caso, a força da música está sendo usada para um bem completo. Aeroplano (Turnover Brasileiro) finalmente conseguiu lançar seu terceiro disco, Animal Sensacional.

"Ambos descreveram ao mesmo tempo como sempre foi março e sempre segunda-feira, e então eles entenderam que José Arcadio Buendía não era tão louco quanto a família, mas que ele era o único que tinha lucidez suficiente para sentir a verdade de o fato de que o tempo também tropeçou e teve acidentes e, portanto, pode se fragmentar e deixar um fragmento eternizado em uma sala ".
                                
                                    - Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão

Há esta regra ocasionalmente falada sobre a escrita da música que sugere que as revisões não deveriam ser abertamente pessoais, que elas deveriam preencher a lacuna entre o escritor e o ouvinte de uma maneira que seja aplicável a todos, mas ainda orgânicos e reais. Não é isso. Este sou eu, sentado em um lugar que eu estou aprendendo a chamar de casa, sozinho aqui pela primeira vez em muito tempo. Um lugar com paredes antigas que ainda não mapeei corretamente. Um lugar que hoje ainda é, e misterioso, o silêncio como um companheiro com o qual você não pode conversar, mas não pode ignorar. É o quarto dia de setembro e o sol está lá e vejo folhas que começaram a girar. Essa é a cena marcada, e eu estou aqui e em nenhum outro lugar, e talvez, agora, você está aqui também.

E então, de algum lugar em outro quarto,  o novo álbum da Aeroplano começa a vazar para este espaço, silenciosamente no início e, em seguida, aparentemente crescendo mais alto, pois ele se enraíza e forma, e encontra o caminho para mim; Esse vocal, tão ponderado com sentimento, se sente pronto para rachar a qualquer momento, deslocando a luz e a atmosfera em um instante, adornando a solidão existente com seu próprio poder suave; um desses momentos de descoberta que demoram por dias, como se fosse para você e para ninguém mais.

Mas foi feito para você também, e ‘Animal Sensacional’ veio ao mundo, um disco de dez faixas que apresentam magia adicional. Um registro pertinentemente, desafiadoramente ondulante, sua voz e visão crescem ainda mais significativas, não apenas um poder suave, mas uma inundação de pungência que entra nas rachaduras  daquelas placas na parede, que transforma essas folhas coloridas ainda mais opacas, que assume o espaço vazio existente.

Ouvir "Grãos" é um desenho instantâneo, um estrondo suave que gentilmente entra em vida; ‘’ Não há com que se preocupar, não se desespere... Tudo encontra o seu lugar, não se desespere... ‘’, Eric canta com uma destruição tangível. Em outros lugares, o deslumbrante tornado emocional empurra sua voz completamente para frente, um momento tênue de equilíbrio sustentado por sentimentos distantes, é um momento de isolamento que parece se afundar no éter depois de vinte seis minutos.

Um empreendimento pessoal, forte e muitas vezes esmagador, "Animal Sensacional" é uma coleção notável de músicas, o tipo de lançamento silencioso que parece reunir sua força de outro lado inteiramente; uma lembrança esmeril e emocionante do verdadeiro poder da vulnerabilidade e sensibilidade. 

Foto: Tita Padilha / Capa: Lucas Pereira 

Lançamento | Herod Plays Kraftwerk: Banda brasileira lança álbum-tributo aos alemães















Vida e obra do Kraftwerk constituem pilares essenciais na história da música eletrônica, do rock e da cultura pop. Justamente pela influência ampla, os alemães são cotados como marco da modernidade e do futurismo até hoje - mesmo que lá se vão quase 50 anos desde o primeiro álbum, Kraftwerk, lançado em 1970. Atravessando o tempo, a geografia e os estilos, 2017 deixa claro que este legado continua a inspirar com o lançamento de Herod Plays Kraftwerk, álbum-tributo produzido pela Herod, banda paulistana de post-rock.

Uma síntese das fases entre Autobahn (1974) e The Man Machine (1978), este compilado de sete faixas não apenas homenageia Kraftwerk como serve também de prova para o experimentalismo da Herod, que recriou para guitarra, baixo e bateria a linguagem dos sintetizadores, teclados e bateria eletrônica. Reunidos em estúdio por mais de um ano até terminar o álbum, foram horas testando efeitos e medindo essências: noise, drone metal, post-rock, indie, krautrock.

Gravado na época que a Herod contava com três guitarras, a parede de compressão e dissonância deu uma densidade extra às interpretações, que ainda foram acrescidas de efeitos de guitarra e voz. “The Hall of Mirrors” utiliza cítara para recriar uma das linhas do sintetizador dando excentricidade bem peculiar à versão.   

Testado ao vivo algumas vezes em 2016, o repertório do álbum funciona tanto para uma audição de fones cuidadosa quanto para as apresentações no palco. Um exercício de criatividade, Herod Plays Kraftwerk é uma peça além do tempo/espaço de cada uma das bandas e carrega o suficiente para agradar o público de ambas.  

Herod é Daniel Ribeiro (guitarra), Sacha Ferreira (guitarra), Elson Barbosa (baixo) e Bruno Duarte (bateria).


Herod Plays Kraftwerk chegou às plataformas digitais no dia primeiro de setembro. Por questões autorais, o álbum não ficará disponível para download.

Tracklist:
1. "Kometenmelodie 1" (Autobahn, 1974)
Versão "drone metal". Influências de Sunn O))) e Earth
2. "Kometenmelodie 2" (Autobahn, 1974)
Versão pesada e rápida. Influências de Mogwai e kraut-rock nos solos
3. "Antenna" (Radioactivity, 1975)
Versão barulhenta. Influências de noise rock
4. "Radioactivity" (Radioactivity, 1975)
Versão post-rock clássico. Influências de Mogwai
5. "The Model" (The Man Machine, 1978)
Versão indie anos 90. Influências de Sonic Youth, Pixies, Dinosaur Jr
6. "The Hall of Mirrors" (Trans-Europe Express, 1977)
Versão pesada e lenta. Influências de Om, Mogwai, Godspeed You! Black Emperor
7. "Autobahn" (Autobahn, 1974)
Versão de quase 20 minutos. Trechos com influências de noise-rock, Swans, Sigur Rós, Mogwai, Godspeed You! Black Emperor - e carrinhos!

Ficha técnica:
Todas as canções compostas por Kraftwerk, rearranjadas por Herod.
Bruno Duarte - bateria
Daniel Ribeiro - guitarra e vocal em “Antenna”, “Radioactivity” e “Autobahn”
Elson Barbosa - baixo
Lucas Lippaus – guitarra
Sacha Ferreira - guitarra e vocal em “The Model” e “The Hall of Mirrors”
Luciano Sallun - cítara em “The Hall of Mirrors”
Gravado no Family Mob Studios (SP), por Hugo Silva
Mix e master no Estúdio Abacateiro, por Samuel Braga
Arte da capa: Rafael Nascimento @ Escaphandro
Arte dos singles “Antenna” e “Radioactivity”: Julian Fisch

Lara Aufranc pede "Passagem" com novos single e clipe

Foto: José de Holanda

É chegada a hora de se desprender do passado e navegar por mares mais ousados. A viagem, sob o comando da cantora e compositora Lara Aufranc, nos carrega para o álbum “Passagem”, o segundo da carreira da artista paulistana. Abrindo caminhos para o disco ela lança a faixa-título, uma introdução para o novo trabalho – desta vez assinado diretamente pela artista, que “encara o próprio sobrenome” sem a presença dos Ultraleves.

O single fala sobre o movimento da cidade, o deslocamento de pessoas e vontades. Numa cidade como São Paulo, o fluxo urbano é constante, circular, e inesgotável. Pessoas perseguem seus sonhos e desejos, ao mesmo tempo em que a sociedade procura encaixá-las em seus padrões. Musicalmente, "Passagem" é a faixa de ligação entre o álbum anterior (Em Boa Hora) e o novo trabalho, transitando naturalmente do piano e voz da MPB para os  sintetizadores e guitarras ruidosas do rock.

Inspirado em filmes soviéticos da década de 20 (”Aelita, a Rainha de Marte” e "Um Homem com uma Câmera”) o videoclipe retrata a cidade como uma máquina, uma engrenagem formada por pessoas. O clipe acompanha a saga de Lara em meio ao fluxo urbano numa São Paulo cinzenta, mas efervescente. “Existe uma solidão no movimento circular e repetitivo das cidades, ao mesmo tempo em que estamos cercados de gente." comenta Lara.

O clipe foi realizado pela EdMadeira Filmes, dirigido e fotografado por Freddy Leal. A cantora assina o roteiro, a edição e a produção do projeto. A estreia marca também o novo momento da artista, que abandona a persona Lara e os Ultraleves para assumir seu nome, Lara Aufranc. Naturalmente introvertida, ela enxerga em seu antigo nome de trabalho uma proteção que deixou de ser necessária. Hoje a artista coloca-se de frente, pronta para dar voz a sons poéticos e viscerais.

Lara Aufranc
Cantora e compositora, Lara Aufranc transita entre a música, a performance e as artes visuais - tem formação em Cinema e Artes do Corpo. A artista despontou como um dos nomes mais promissores da nova música brasileira em 2015 após o lançamento do disco “Em Boa Hora”. Influenciada por artistas consagrados como Tom Waits, Elza Soares, Beck e Tom Zé, mas também contemporâneos como O Terno, Tulipa Ruiz, Devendra Banhart, e Metá Metá, a música de Lara Aufranc é um convite ao universo musical ora retrô, ora contemporâneo, da artista.