quinta-feira, 4 de maio de 2017

Lançamento | Fluxo é o novo álbum da big band carioca Zé Bigode

Foto: Lucas Santos

Cartão-postal musical, o primeiro álbum cheio do carioca Zé Bigode, Fluxo, é um convite a visitar os pontos históricos do Rio de Janeiro, a dar um passeio noturno em Havana, sentir a herança africana nos tambores tribais ou até reviver o hard bop.

A universalidade do trabalho instrumental, no entanto, serve além dos limites geográficos e das barreiras de linguagem. Vai a todos os lugares e conversa em todas as línguas. Traz para o RJ o mangue pernambucano e vai a Cuba tocar música brasileira. As experimentações são livres e trazem os toques pessoais de um time de instrumentistas das mais variadas regiões da cidade do Rio, agregando influências de culturas locais distintas. Essa variedade também influencia no alcance da música instrumental, hoje não mais segregada a espaços eruditos e manifestada, principalmente, nas festas populares e na cultura de rua.  

O idioma musical aqui é poliglota - samba, reggae, baião, jazz, afro - e não se intimida em avançar mais passos dentro de outras influências como o hip hop, o rock ou a psicodelia. “É mesmo uma grande mistura”, diz Zé quando comenta sobre ter incluído toques de candomblé também. A faixa “Amalá” usa o alujá, ritmo de marcha típico nos terreiros, e saúda o orixá Xangô, rei da justiça e do fogo na tradição africana. Daí uma imersão mais tribal, mais conectada com a terra. Isso não impede também as ideias mais urbanóides de constarem nessa variada gama estilística. “Gosto de mesclar, em “Domingo no Centro” vamos de jazz e hip hop até entrar num baião”, diz o músico sobre os tantos mundos presentes em apenas uma de suas músicas. Já “Marijuana Monamour”, feita pelo compositor periférico negro Fernando Grilo, é a única cuja autoria não é de Zé, mas que ganhou sua assinatura nos arranjos e melodia. Apesar de instrumental, o álbum tem participação da escritora Ingra da Rosa, que canta versos nas faixas “7 Caminhos”, “Amalá” e “422”.

Arquitetado por 15 instrumentistas, Fluxo é uma ideia coletiva. Partiu dos temas e harmonias criados por Zé Bigode mas ganhou corpo com os arranjos surgidos em ensaios e jams. Todos os solos foram de improviso durante a captação, o que deixa as faixas soltas, sem amarras na criação. O álbum foi gravado quase que inteiramente ao vivo e mostra a coletividade dos músicos. “Nossa ideia era registrar todo mundo junto. 80% do material foi feito ao vivo, o restante foram overdubs que eram impossíveis pela limitação numérica”, conta ele sobre a criação conjunta.

A influência da música cubana é ponto forte neste trabalho, algo que não somente traz uma veia cosmopolita ao álbum, mas principalmente o coloca como trilha possível para bailes calorosos, danças quentes. Depois de visitar Havana, Zé Bigode quis dar a Fluxo um capital cultural ligado ao capital pessoal. “Em Cuba você vê que as pessoas sabem o que elas são e o que representam para o país. Isso influencia na música local, já que todos desempenham um papel acima da média com seus instrumentos e vozes. Eles sabem que fazem parte do patrimônio cultural do país e isso tem um impacto muito grande em como a música e as artes são assimiladas por lá. Também existe uma inserção grande de mulheres na música, coisa que ainda é permeada pelo machismo em muitas partes do mundo”, lembra ele sobre a estadia na ilha.

Mas Cuba não é o único cenário aqui: os clubes de gafieira, os boêmios pubs de jazz, a guitarrada paraense são paradas essenciais no roteiro do álbum. Zé Bigode atravessa o mundo com essas oito novas composições sem deixar a herança da música brasileira em segundo plano, afinal, quem tem raízes sabe a importância de mantê-las em sua terra. 

























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