terça-feira, 16 de maio de 2017

Feira Equatorial - Paná

Foto: Thamires Rafael

Talvez, também, a personificação mais forte do nome, Feira Equatorial certamente transporta o ar de um navio com ela, as canções perpetuando uma sensação ardente de viagem e transporte, como mensagens transportadas de um lugar e tempo para outro. Talvez seja o calor da produção, ou possivelmente os vocais instantaneamente acessíveis de Thalia Sarmanho, seja qual for, a estreia de ‘’Paná’’ de alguma forma remove a barreira entre o ouvinte e a música. Cada batida golpeia diretamente no peito, o rangido das batidas risca cortes através da tensão harmoniosa, melodias perfuram com a lavagem do som, tudo exatamente da mesma maneira que envolvente, que nos lembram de compartilhar cervejas nos fins de tarde refrescantes de Belém. 

O primeiro EP da Feira Equatorial apresenta 4 faixas que são principalmente entrelaçadas de voz e guitarra, com o ocasional florescimento percussivo, e, por toda a sutileza que se senta no coração deles, a magia silenciosa se espalha excepcionalmente, como grandes sombras longas lançadas para o mundo. Compelindo em tudo, o registro foi construído sobre as fundações da banda e oferece algo enfático, apesar do apetite lento para a vida que fica no centro dessas canções. Um disco que precisou passar por um processo de maturação ate ser apresentado o mundo em sua plenitude.

O álbum abre com 'A Flor e a Calçada' e a intenção de descarrilar os sentidos é clara. É como se estivéssemos presos em alguma batalha cibernética entre o hiper-realismo industrial e o minimalismo abstrato zen do caboclo marajoara. A previsibilidade logarítmica choca com o caos niilista. No entanto, ao lado de Thalia, cujo vocal lânguido cruza sem esforço mesmo as paisagens aritméticas mais desafiadoras, descobrimos que essa perplexidade faz estranhamente sentido total, mesmo que não possa ser totalmente compreendida.

A entrega vocal hipnótica é a pedra fundamental aqui, decifrando os impulsos conceituais aleatórios da música e codificando-os em um som tradicional puro. Esse processo reflete a incessante construção de sentido da vida moderna, presa pelo ritmo dos avanços tecnológicos que não devemos entender. Como em ‘O Mistério das Enchentes’, compartilhamos no sentido de insatisfação, até mesmo de frustração, em perder-se a uma maré irreprimível de compromisso e à confusão de valores no mundo de hoje. ‘Vim Pra Te Ver’  fornece uma resposta determinada a isso, em parte, com a sua lisergia, obscura cacofonia dando lugar a um muito direto ‘Vim aqui pra te contar, que o dia é bem maior hoje com você’.  E aqui, ‘La Sal’ sai de cada centímetro do regionalismo com sua guitarra e baixo fazendo um convite a uma dança quase que espontânea , tendo um fim tão nostálgico. 

Não há dúvida de que esses esboços são nada além de orgânicos e intuitivos. Vestindo-se sem um pensamento de uma desilusão, eles inibem um espaço que se sente ao mesmo tempo emocionante, mas também um deslocamento vertiginoso; O sorriso mais largo permanentemente enfeitado, o som inebriante de uma nova cidade florescendo na frente de seus próprios olhos.

Download do disco AQUI


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