quarta-feira, 3 de maio de 2017

Desventura - Sonhos Tangenciais

Capa: Thiago Vieira

Dualidade é um conceito muito intrigante. Pensar que certos objetos, seres, sujeitos podem habitar duas esferas ao mesmo tempo - dois lados de uma linha metafísica que quando cruzada é o oposto do outro lado acaba sendo uma ideia estimulante. Se você começar a procurar representações da dualidade, você pode se surpreender ao testemunhar que muitas coisas ocupam essas duas esferas. Eu nunca deparei com um álbum que em apenas curtos minutos pudesse ser capaz de abraçar completamente a ideia de dualidade, enquanto soando coeso e direto. Bem, isso é exatamente o que a Desventura conseguiu em seu  ‘Sonhos Tangenciais’.

Na primeira linha da faixa de abertura ' Assim... ', é indicativo do álbum como um todo. Cheio de variação vocal e experimentação, a maioria das canções estão repletas de momentos diferentes, mas não esconde o fato de que se cansaram diante de um mundo desarrumado. A banda soa cansada e drenada de uma maneira que eles não fizeram antes. É um ângulo interessante para observar a ansiedade pulsante que ecoa generalizadamente pelo disco. O post-punk simples e fervente funciona bem com as letras inteligentes e desesperadas do disco, distribuídas frouxamente, quase como palavra falada. Talvez porque pareça que o mundo está mais fodido do que nunca, o álbum está quase aceitando o desespero, ao invés de ansioso ou desafiante.

Sonhos Tangenciais é um brilhante testamento da habilidade do pós-hardcore de combinar guitarras pesadas, ritmos rápidos e vocais ásperos com melodicismo, desgosto e empatia absoluta. Porque o que é música, se não uma chance de ditar os nossos sonhos para o mundo, esperando que eles possam encontrar um lar no ouvido de outra pessoa.








































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