segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ouça: Todas as Brisas de Lê Almeida

Foto: Filipa Andreia

Embalado pelas ondas do mar de Búzios, Todas as Brisas é o quarto álbum da discografia de Lê Almeida, que, sob alcunha de seu próprio nome, toca ao lado de João Casaes (guitarra), Bigú Medine (baixo) e Joab Régis (bateria).

Neste lançamento, o idioma musical é abrangente e vai da surf music ao space rock sem deixar para trás os delays e as melodias psicodélicas. Todas as Brisas foi inteiramente composto e tocado por Lê Almeida e masterizado por João Casaes, entre 2015 e 2016, no Escritório (RJ). O trabalho é o número 90 da TransfusãoNoise Records, tem distribuição digital da DeckDisc e será prensado em K7, vinil e CD em parceria com a Outprint (SP) e IFB Records (USA). 

Por Carlos Albuquerque

Arte: Lê Almeida

Lê Almeida não tem muita noção do próprio tamanho.

- Pior que nem lembro. Da última vez, eram dois metros – chuta, de um jeito 
engraçado, o grande cantor, compositor,  guitarrista, dono de gravadora, artista plástico e farol da independência musical “made in Rio”.

Quando nos encontramos pela primeira vez, há seis anos, ele sozinho já tomava quase todo o espaço do estúdio improvisado no apertado quarto da casa dos seus pais, em Vilar dos Teles, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.  Como me explicou  na ocasião - serenamente, sem nenhuma reclamação -  ali ele gravava, produzia, editava e “prensava” (em CDRs, com capas boladas por ele também) quase todo o material da Transfusão Noise Records, selo que gerou entre 2004 e 2005. Algumas gravações mais complexas, porém, eram feitas do lado de fora do Interestellar Lo-Fi (nome bastante simbólico com o qual batizou o local), como no quintal da residência dos Almeida, desde que a máquina de lavar roupa não estivesse funcionando e os passarinhos da área dessem uma trégua no seu canto independente.

De lá pra cá, Lê não parou de erguer-se, trazendo um bocado de gente junto. Lançou três álbuns solo, tocou em diversos projetos paralelos (dentro da própria TNR), co-produziu um álbum dos Autoramas (O Futuro dos Autoramas) e foi o combustível para que a gravadora colocasse na rua mais de 80 discos, de bandas como Carpete Florido, The John Candy, Suite Parque, Babe Florida e – temos um nome campeão - Uma Nova Orquídea Em Meu Jardim Alucinógeno. Como indicam os sinais, todas elas apresentando um contagiante som de guitarras distorcidas e tintas psicodélicas.

Falando em mentes alteradas, num ano em que o Brasil parece uma bad trip - dentro da qual são derretidos direitos e garantias, sem o menor pudor – Lê chega ao quarto álbum, Todas as Brisas, com a espinha ereta e o coração tranqüilo, soprando breves momentos de ternura elétrica, capazes de ajudar a atravessar essa onda ruim, uma canção de cada vez. O disco é o sucessor de Mantra Happening, marcado por um hipnótico clima de jam, estilo “space rock”, como diz sua hashtag no soundcloud. Curiosamente, o novo disco – gravado no Escritório, novo quartel general da TNR, no Centro do Rio, que abriga também um micropalco e um minibar - fica num meio termo entre o shoegaze dos seus trabalhos iniciais e os lindos sonhos delirantes de “Mantra”.

- Esse disco já tava gravado quando fizemos o Mantra, mas eu achei que a gente tava em uma fase ao vivo muito mais ligada ao Mantra do que a esse disco, por isso lançamos ele primeiro – explica ele, referindo-se ao seu power-quarteto, que tem  João Casaes (guitarra), Bigú Medine (baixo) e Joab Regis (bateria). – Mas Todas as Brisas traz um pouco do trabalho anterior, com umas faixas mais longas do que eu fazia antes.

Com um vinil que terá fotos de praias nos selos dos lados A e B, além de músicas com nomes como "Quebrante das ondas", "Praia alta" e, claro, a própria faixa-título, não é difícil imaginar de onde vem a inspiração para o clima ensolarado, sem previsão de chuvas, que marca Todas as Brisas.

- Esse disco tem mesmo um clima de praia, uma conexão que só percebi depois que uma amiga falou algo parecido sobre Paraleloplasmos  – explica Lê, que participou recentemente do Pulso,  uma residência artística na Red Bull Station, em São Paulo . -  Também rolaram umas viagens pra Búzios que me levaram ainda mais pra esse caminho.

Esse astral areia e água salgada também contaminou as colagens que Lê criou para acompanhar o disco - um trabalho que ele vem realizando há algum tempo, sempre em paralelo às suas investidas musicais.  Expostas na Galeria Recorte, em SP, e transformadas em fanzine (“todo em xérox e costurado pela minha avó”, ressalta), as 29 obras – com imagens de uma mulher de rosto enfiado num liquidificador, gurus flutuando sobre as águas e um cavalo dentro de uma geleira, entre outras - parecem, às vezes, saídas de fotogramas do delirante diretor chileno Alejandro Jodorowsky.

- Pra mim existe uma conexão clara entre som e imagem. Faço colagens pelo mesmo motivo que faço música e ultimamente tenho me dedicado ainda mais a esse trabalho- diz Lê, esse gigante gentil, ainda incerto do próprio crescimento. - Nunca imaginei que ia chegar numa galeria. Quando comecei, só estava tentando imitar as capas do Guided by Voices e do Pavement.

Ah, Lê, já pensou em pegar onda, de prancha mesmo?

- Nunca pensei não.  Até ando de skate, mas prefiro pular as ondas.

Rio de Janeiro, 2016


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