terça-feira, 29 de setembro de 2015

Feito para uma longa caminhada no meio do inverno


Há sonhos estranhos que não são pesadelos terríveis, mas de vez em quando é a realidade que prova ser mais estranha do que o normal. Do Rio Grande do Sul, sob o pomposo nome The Cult of The Dead Bird , o hiperativo Régis Garcia detalha uma existência incrivelmente estranha em seu mais recente projeto instrumental homônimo. A totalidade do disco é preso nesses momentos fugazes de acordar do sono; onde se tem conhecimento que está acordado e ainda assim, ainda sonhar acordado enquanto naturalmente, se faz o caminho para a consciência.

Cada faixa do registro parece estar a transferir esporadicamente em equilíbrio e consciência, muitas vezes perdendo o controle sobre a intenção de pleno direito, pensativo, logo que as coisas começam a fluir naturalmente. Em alguns álbuns, essa pode ser uma falha crucial; às vezes, a linha entre coesão e imprevisibilidade é simplesmente muito tênue. Esculpido de forma menos ‘comercial’, porém, tal aversão à constância serve como o triunfo de Régis sobre aqueles que duvidaram de sua capacidade para capturar a visceralidade da natureza sob estes termos menos-que-orgânicos. Parece óbvio no início do disco que as texturas são combinadas para ficarem irritantes como o diálogo instrumental – fraturado - confessional na faixa de abertura, mas logo começa uma rápida transição para a cintilação, sinos lo-fi-noise-ambient. ‘’humdrum’’ é uma faixa onde fui consumida por forças externas, antes de voltar bruscamente para a incandescência de trinta segundos antes.

Alguns álbuns imploram para serem devorados rapidamente, tentando passar pelo crivo dos bons ouvidos, a "experiência álbum completo" pode muito bem não ter acontecido. Todavia, The Cult of The Dead Bird amarra o ouvinte, que descobre com ele, tanto os momentos de dolorosa precisão, que são necessários para criar algo tão original, mesmo que ainda tão intrinsecamente familiar. É nessa finalidade anteriormente mencionada que uma grande obra de arte, ou realmente qualquer experiência única e gratificante, pode ser totalmente medida para o seu valor, e acaba premiando o ouvinte com uma dose de clareza e devaneio. Também é consistente e sedutor, aproveitando seus momentos de entrega consistente por toda parte, emprestando uma conexão emocional em alguns momentos, e uma conexão puramente estética em outros. Independentemente de saber se o ouvinte está se conectando emocionalmente a sentimentos de solidão e auto aversão, ou simplesmente ouvir e pensar junto.  Ponto forte do disco é a forma como o músico mistura gêneros enquanto ainda conseguindo parecer acessível. Por toda a sua intimidade agonia e dor, o disco já é uma das coleções mais vividamente belas e totalmente enriquecedoras de música para ser ouvida este ano.

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