sábado, 21 de março de 2015

Entrevista - Trupe Chá de Boldo e seu ''Presente'' álbum

 
      Foto: Pablo Saborido


Com quase dez anos de estrada, a banda paulistana Trupe Chá de Boldo lançou seu terceiro disco, “Presente”, com shows no teatro do Sesc Vila Mariana nos dias 14 e 15 de março. O álbum apresenta as transformações da banda após “Bárbaro” (2010), “Nave Manha” (2012) e as participações nos últimos dois discos de Tom Zé, “Tribunal do Feicebuqui” (2013) e “Vira Lata na Via Láctea” (2014).

Assim como em “Nave Manha”, a produção do trabalho é assinada por Gustavo Ruiz (produtor e guitarrista de Tulipa Ruiz), com mixagem feita por Victor Rice e masterização de Fernando Sanches (estúdio El Rocha). O disco traz 11 faixas inéditas – entre elas parcerias com Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Tatá Aeroplano e Iara Rennó – e uma releitura de “Jovem-Tirano-Príncipe-Besta”, de Negro Leo.

Trupe Chá de Boldo é: Ciça Góes, Felipe Botelho, Gustavo Cabelo, Gustavo Galo, Guto Nogueira, Julia Valiengo, Leila Pereira, Marcos Mumu, Pedro Gongom, Rafael Werblowsky, Cuca Ferreira, Remi Chatain e Tomás Bastos.

Aproveitamos a oportunidade do lançamento para bater um papo com o saxofonista, Marcos Grinspum Ferraz sobre ''Presente''.

Como foi o começo da trupe? Dizem que foi pelos muitos carnavais de Caetano Veloso ou através de um ônibus clandestino... Como explicar a construção desse coletivo?

São muitas histórias reais e imaginárias né... Mas, resumindo, a banda surgiu com um trio de amigos (Gustavo Galo, Dan Leite e Carlos Conte) que, em um dia de ressaca (um 01 de janeiro, no caso) decidiu formar um grupo que tocasse sempre para animar os dias após as grandes festas. Uma banda que fosse uma “revolta contra a ressaca”, digamos assim. Claro, isso foi apenas uma brincadeira inicial. Bom, os três logo começaram a chamar mais gente para entrar, outros amigos instrumentistas (eu, por exemplo), até que a banda virou o bando que é hoje.

A banda é formada por quantos membros? Isso afeta na logística ou é algo funcional dentro desse caldeirão de ideias?

Somos 13 pessoas, o que gera grandes dificuldades nessa parte de logística (marcar ensaios, shows, conseguir viajar para mais longe, ganhar algum dinheiro etc.), mas também resulta em infinitas possibilidades quando se trata de fazer música, de ter um espaço fértil de criação e discussão. Na Trupe todos trazem ideias, referências e experiências de vida variadas. E ninguém manda mais que ninguém, todos tem voz. Claro que fazer arte coletivamente é algo difícil, pois é preciso ter desapego certas vezes, brigar por suas ideias em outras... É mesmo uma loucura, mas muito prazerosa, ainda mais quando acontece entre bons amigos, como nós somos. No fim, de algum modo a gente se entende. Não é a toa que estamos juntos há quase 10 anos, né?

Foto: Ana Beatriz Elorza
Quais as principais influências da trupe?

Somos treze pessoas, com gostos variados, com formações musicais diversas, então são muitas as influências. E uma das maiores graças da trupe é não ter muitos preconceitos musicais, e ter total liberdade criativa. Quer dizer, tudo pode ser referência quando estamos criando, e não há um gênero ou estilo musical definido no que fazemos. Uma banda grande não cabe quase que em lugar nenhum, como brinca a letra da nossa canção “Uma Banda”, mas cabe muita coisa (muitas sonoridades) em uma banda grande. Se eu fosse listar influências que são mais ou menos comuns para todos os 13, poderia falar da Vanguarda Paulistana, da Tropicália, do rock dos anos 80, ou ainda de muita gente que está fazendo música boa hoje em dia no Brasil, nossos contemporâneos. Mas no caldeirão da trupe entra também carimbó, música cigana, eletrônica, afrobeat, pop e assim por diante. Acho que a graça é essa: ter ouvidos abertos, e não tentar definir ou classificar muito as coisas.




Falando sobre o novo disco, como foi o processo de composição? Todos participam de tudo?

Na criação dos arranjos, tudo sempre foi muito coletivo na trupe, desde o início. Todo mundo dá pitaco em tudo. Mas no que se refere à composição, até um tempo atrás a coisa estava mais concentrada nas mãos do Galo, o que está claro nos nossos dois primeiros discos, “Bárbaro” (2010) e “Nave Manha” (2012). Acontece que em “Presente” até a parte da composição ficou mais coletiva. O Galo continua compondo bastante, mas o disco tem também músicas do Bastos, da Julia, da Ciça, do Felipe, do Guto, do Rafinha e por aí vai. Além de parcerias com gente de fora da Trupe, como Tatá Aeroplano, Iara Rennó e Marcelo Segreto, amigos com quem convivemos e aprendemos muito.

São Paulo continua sendo o ponto de referência da banda?

Crescemos, vivemos e “atuamos” em São Paulo, e isso certamente se reflete no nosso som, no nosso trabalho. Mas não somos bairristas. Acho que nos sentimos mais “cidadãos do mundo”, digamos assim, porque nosso olhar musical está voltado tanto para o que acontece aqui quanto para o que vem de fora, dos mais variados lugares. Existe uma efervescência cultural e musical incrível em São Paulo, e isso nos afeta positivamente. Mas essa efervescência só existe, também, porque por aqui circulam muitos artistas talentosos de vários outros Estados do país. Além disso, desde que começamos a viajar mais com a Trupe, para fazer shows no Rio, em Minas Gerais, Espírito Santo, etc., acho que ficamos ainda mais ligados nos sons que vêm de fora. Aliás, nosso objetivo esse ano é conseguir viajar também para fora do sudeste, algo que ainda não foi possível pelo tamanho da banda, mas que logo logo vai rolar.

De 2006 até agora, já são quase 10 anos de carreira. O que mudou nesse tempo dentro da trupe?

É tanta coisa que fica difícil dizer. A maioria dos membros da banda tinha uns 20 anos de idade quando começamos, e aquilo era uma grande brincadeira, uma farra de amigos, pra tocar marchinhas de carnaval e uma ou outra música autoral. Essa essência, da amizade, continua. Mas o som mudou, nós mudamos, amadurecemos, envelhecemos um pouco, vimos o mundo mudar... Quer dizer, somos os mesmos, mas estamos sempre em transformação. E ninguém podia imaginar que a coisa iria se profissionalizar, que um dia teríamos três discos gravados, que estaríamos viajando por aí mostrando nossa música, sendo reconhecidos por isso. É muito gratificante ver isso tudo acontecendo, e ver também que continuamos sendo grandes amigos, depois de tanto tempo e de todos os desgastes que a convivência (tão intensiva) pode causar. “Uma banda grande só cabe onde tem tesão”, diz também a letra da nossa música.

O que os fãs podem esperar do novo disco?

Bom, o “Presente” já está aí no mundo para as pessoas ouvirem (aliás, podem baixar de graça ou comprar o disco físico no nosso site), então cada um vai poder ouvir e ter suas opiniões sobre ele. A recepção tem sido muito boa por enquanto, por parte de amigos, do público, da mídia... Estamos bem felizes com isso.

Quais os próximos planos da trupe? Vai rolar uma tour de ‘’Presente’’?

Sim, a ideia é viajar o máximo que der! Já temos datas marcadas em Minas e no interior de São Paulo, e em breve teremos também lançamento no Rio. Mas, como eu disse, a ideia é conseguir ir mais longe dessa vez, para o Sul, para o Norte... quem sabe até pra fora do país! Seria incrível.

São Paulo tem uma cena autoral/independente muito forte. Quais bandas vocês indicam para o blog?

Tem muita coisa boa rolando por aqui, gente fazendo música independente, autoral, muitas vezes “na guerrilha” mesmo, sem grana, mas com talento e disposição. São muitos... mas que me vem agora na cabeça, posso citar Tatá Aeroplano, Cérebro Eletrônico, Tulipa Ruiz, Bixiga 70, Gestos Sonoros, Garotas Suecas, O Terno, Memórias de um Caramujo, Primos Distantes, Luiza Lian, Lelo di Sarno, Samba do Bule, Pélico.... nossa, muita gente.

Por fim, o que vocês conhecem da cena autoral de Belém? Já tocaram aqui pelo norte?

Nunca tocamos no Norte, mas quando pintar uma oportunidade vamos correndo, voando! Gostamos muito da música que vêm daí, das levadas, do suingue. Guitarrada, carimbó, tecnobrega... são sons que estão chegando muito fortes aqui, pelas mãos de Felipe Cordeiro, Manoel Cordeiro, Gaby Amarantos, Luê e outros, que gostamos muito. O Bastos, nosso guitarrista, às vezes nos mostra também umas coisas de música mais tradicional do Pará, mas que eu não lembraria aqui o nome. Mas de fato são sons que me encantam demais, e que também influenciam a Trupe. Acho que na faixa “Diacho”, por exemplo, do nosso disco novo, isso fica um pouco claro.
Download gratuito de "Presente" (e dos outros discos) lá no nosso site da trupe:

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