quinta-feira, 26 de março de 2015

Entrevista - Lê Almeida - Paraleloplasmos (2015)

Foto: Janine Magalhães

Por: André Medeiros (Top Surprise) 

Paraleloplasmos, o segundo álbum de Lê Almeida, é repleto de lágrimas reinventadas como guitarras. Camadas de fuzz envolvem as canções como uma armadura protetora. São músicas de andar sozinho, feitas por um único cara, e tão desconfiadas do mundo e cheias de determinação quanto seu autor.

Paraleloplasmos dá seqüência ao EP Pré-Ambulatório, lançado em 2012. Após uma dezena de lançamentos, entre singles, EPs, coletâneas e afins, Lê Almeida lançou seu primeiro disco cheio, Mono Maçã, em 2011. Enfim, o que vem depois do Pré Ambulatório? Um cenário denso, impregnado de fuzz até o infinito.

Foi o primeiro álbum produzido do início ao fim no Escritório, o quartel-general da Transfusão Noise Records inaugurado em 2013 no centro do Rio, onde também acontecem shows, exposições e tantas outras coisas. Paraleloplasmos trás 12 faixas, em que Lê explora sonoridades novas, criando outras formas de empregar a velha guitarra Giannini Supersonic e a coleção de pedais de distorção surrados.

Há também violões, teclados, percussão e os barulhinhos psicodélicos que nunca abandonaram o som do Lê, desde as primeiras gravações caseiras. Com tudo isso, e certamente a liberdade do ambiente novo do Escritório, há mais coesão na trama de melodias e experimentos - Lê, que grava todos os instrumentos sozinho, nunca soou tanto como uma banda. Nunca foi tão claro como ele é um baterista nervoso e expressivo, por exemplo. E tem power chords pra irrigar a capital paulista por pelo menos um mês. Chuva grossa, insistente, ininterrupta, diferente das pequenas pancadas de variadas formas predominantes na maior parte dos trabalhos anteriores do Lê. O som não é mais aquele do quintal na baixada; dá pra sentir agora a vibração das paredes da pequena sala comercial onde o QG é instalado, cobertas de colagens, folhas de Xerox, imagens de revistas, pôsteres de shows, pichações, cabos, microfones, TVs rodando filmes velhos em VHS. É um ambiente acolhedor, pronto para a gravação.

Abaixo você confere a entrevista que fizemos com Lê Almeida:


Atualmente, com quantas bandas você está envolvido?

Eu toco guitarra e canto na Babe Florida, Tape Rec e solo, toco bateria e canto com a Treli Feli Repi, só bateria com Gaax, Carpete Florido e Suite Parque, gravo um monte de coisas no Refrigerantes e atualmente eu montei uma banda nova chamada Bolden, ainda ta nascendo, mas eu toco guitarra e canto. Todas essas bandas na real não são mega ativas então é tranks tocar em todas elas. Também tem as bandas que eu produzo os discos ou ajudo na produção.

Elas lançam material novo esse ano?

Um monte delas vai lançar discos esse ano, talvez seja até o ano onde saiam mais discos na história da Transfusão.

Você acabou de lançar um novo disco, ‘’Paraleloplasmos’’. É evidente sua evolução musical, muito perceptível e aceitável. Quanto tempo você levou para concluir este novo trabalho? Conte-nos um pouco sobre a produção do álbum?

Acho que algumas mudanças são perceptíveis quando você passa a se aprofundar em novos sons, novas viagens, essas coisas. eu comecei a gravar o disco de um jeito, daí mudei tudo e praticamente 90% dele eu gravei fazendo as coisas na hora, não eram canções que eu tinha feito antes, devagar, planejando. Eu deixei de lado tudo que tava fazendo antes e passei a fazer algo novo, gravei muitas faixas que ficaram de fora e eu demorei um ano, pois no meio do disco eu sempre produzia algumas coisas de amigos, mas aproveitei a boa onda e depois de concluir a gravação eu continuei gravando.


É um disco mais introspectivo?

Com toda a certeza do mundo, pensei demais sobre a importância do delay dentro da cabeça, é um tipo de som que me faz pensar nos anjos, no céu e em coisas que existem e eu talvez nunca veja.

Esse disco me parece melhor do que o primeiro... Uma mudança boa. Concorda?

São ondas diferentes, hoje em dia eu faria o primeiro disco de outra forma, mas eu não o renego, também curto aquela onda das faixas curtas e a onda de agora eu nem considero como evolução mas sim uma viagem, que imagino ser uma constante na minha vida. Porém em termos de produção eu considero sim esse melhor que o primeiro, mas nesses anos eu fui aprendendo mais sobre gravação é natural, daqui a dois anos talvez eu passe a saber ainda mais.

De onde surgiu a ideia do nome do disco?

Foi uma contemplatividade sobre os paralelos, pessoas coisas, amores, sons. E eu sempre curti inventar alguns nomes juntando o sentido de duas coisas opostas.

Como é o processo de criação de faixas como ‘’Fuck The New School’’, com seus 11 minutos?

É baseada na repetição, mas eu penso muito sobre o quanto você pode curtir dentro da sua casa, batendo cabeça, sozinho ao som de um riff que possa talvez te tocar a alma ou talvez seja só contagiante, algo que te faça não pensar e sim curtir, refletir, contemplar. Também curto demais a ideia de ter uma faixa grande em um disco que não é todo assim, feito de faixas grandes.




Pra compor e moldar a sonoridade desse disco, quais foram as principais influências?

Não sei bem se isso foram coisas que moldaram o som mas são coisas que eu ouço quase todos dias, Scientist, Black Uhuru, Thee Oh Sees, Hawkwind, Duster, Helvetia, Built to Spill...

Foi você quem escreveu todas as letras?

Sim

Quais serão os desdobramentos do lançamento do álbum? Há disco físico e videoclipe a caminho?

O disco ta saindo no Brasil via Transfusão com distribuição digital da Deckdisc, nos Estados Unidos em CD via Jigsaw Records, em cassete via Lost Sound Tapes e em LP via IFB Records (esse último formato é em parceria com a Transfusão, a gente vai ter metade da prensagem no Brasil). A gente deve lançar um vídeo clipe em breve, já temos um outro quase pronto e vamos gravar um novo no fim de abril.


Como você se posiciona sobre a atual cena independente carioca?

Eu não sei muito sobre ela, eu conheço mais a cena do Escritório, a galera que toca por lá e frequenta os shows, pra mim essa é uma cena, uma cena de pessoas interessadas no som, em conhecer pessoas e viver o mundo além do digital!

Fale um pouco sobre a Transfusão Noise Records e o Escritório. Como vocês gravam? Algum processo especial?

Então, hoje em dia tudo da Transfusão é feito no Escritório (ensaios, gravações, cópias de discos, silks, reuniões...). A ideia dos shows é de não ser como uma casa de show, a gente recebe mais bandas de fora que nos procuram por curtir a nossa onda, existe uma real interatividade de sons, isso é muito importante pois existem lugares e lugares, define muito a sua noite de loucuras se você sabe o tipo de som que esta indo atrás. A gente não grava só bandas da Transfusão, também trabalhamos como um estúdio gravando outras bandas de fora, mas só trabalhamos com rcknrll pois é o tipo de som que a gente consegue mexer e obter um resultado pesado. Além disso, a gente não trabalha no modo formal como os estúdios convencionais por ai, tem café toda hora, a gente para pra ouvir um LED as vezes, é total descontraído e pra lembrar que você precisa ter ótimas lembranças da gravação do disco da sua banda.

Você já tem uma agenda cheia de shows, inclusive toca no Bananada em Goiânia. Algum rolê de Paraleloplasmos pelo norte do pais?

Poxa, queria demais votar ai pra região norte, só fui uma vez em 2010 pra tocar no Se Rasgum, que foi bonito demais! Mas o ano ta bem no começo ainda, pode ser que até o fim dele e com disco girando por ai eu consiga algo.

Ouça Paraleloplasmos, Baixe Paraleloplasmos:

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