sábado, 28 de março de 2015

Entrevista - A era do Carnaval dos Bichos// Madame Rrose Sélavy


Eis que sexto não é terço e Madame Rrose Sélavy reza como os sambistas. CARNAVAL DOS BICHOS, nono álbum da banda, em seu sexto ano desafiando os pudores alheios, vem para fazer o rei Momo fugir do trono. O deus da sátira, do sarcasmo, do culto ao prazer e ao entretenimento, do riso, da pilhéria, das críticas maliciosas é invocado para tirar o sossego dos homens. Eletro frevo bossa punk pop experimental hardcore poderoso, cagando para a ganância que entorpece os sentidos, sonoridades que soam como selvagens travessuras. Sedução, psicopatia, erotismo e desilusão, todo dia é dia de frio na espinha. Absurdo e sensual, insano e dançante, exaltando a saudade, o amor cósmico e kármico, a banda instiga o tamanho da pândega para cantar que a vida é muito louca pra quem quer tanta coisa. Para ouvir em meio a confetes, serpentinas, lança-perfumes e foliões avenida afora. 


Antes de tudo: Qual a origem do nome Madame Rrose Sélavy?

O nome vem do alter ego feminino do incrível Marcel Duchamp, artista que usou muito do deboche em suas obras, uma grande influência artística para os membros da banda.

Falem sobre o começo, como surgiu a banda?

Parte dos integrantes já se conhecia há décadas (Alex Pix, Lacerda Jr e o TucA), e tiveram seus muitos projetos musicais, juntos e paralelos, entre outras ações culturais e artísticas. A maioria dos membros transita em vários campos da arte (cinema, vídeo, música, quadrinhos, teatro e artes visuais). Mas em janeiro de 2009, com a entrada da Ana Mo, numa experiência bem mais caseira que hoje, produzimos e lançamos o primeiro disco: Duchamp: C'est La Viel. Em 2013 a banda reformulou tudo, principalmente com a entrada do nosso baterista Rodolpho "Urubu" Soares (Electrophone, Pubele Neon, FadaRobocopTubarão). Na sequência, tivemos como baixistas o Miguel Javaral (Ü, Efeito Gruen, Picnic no Front) primeiramente, depois o Marcos Batista (Fodastic Brenfers, FadaRobocopTubarão, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo).

Quem são os membros da Madame? Existem projetos paralelos?

Hoje somos nas guitarras o Pix e o Lacerda Jr. (teclados), nos vocais Ana Mo e o TucA (programação), no baixo o Batista e na bateria o “Urubu”. Todos têm projetos independentes da mme. Além das bandas citadas na pergunta anterior, tem o solo do TucA, Escama de Peixe, Felix Canidae, Antitrusts e futuramente o projeto Mimosa Hostilis.

Nas letras e nos vídeos existe uma clara referência ao exibicionismo de ideias, a ironia selvagem, escárnio de pensamentos e anarquia sonora. Isso é fruto das influências de cada membro?

Sim, todos os membros vêm da cultura underground, do faça-você-mesmo, dos zines, dos quadrinhos, do punk, das ruas. Além da multidisciplinaridade artística dos integrantes da banda, o que traz muitas influências e trocas dentro do grupo.



Falando em influências, na obra da banda se observa traços de Mutantes, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção Karnak, Ana Cristina Cesar, Leminski, Chacal... Como cozinhar tudo isso nesse caldeirão?

Os poetas nas letras, os músicos na composição. Na hora de produzir, sempre as influências se encaixam nas canções, mas não pensamos friamente, vem tudo naturalmente, só percebemos depois. É bem difícil não misturar as coisas. São tantas referências e experiências, gostamos de dar uma pincelada em tudo.

A impressão que tenho é que a Madame não cabe em um gênero só. Estou certo?

Com certeza, como dito antes, são muitas influências, autores, gêneros e ideias. Nomeamos o que fazemos de “eletro frevo bossa punk”, mas nem sabemos se encaixamos também.

O entrosamento e a cumplicidade entre os integrantes mostra uma segurança para trabalhar em tantos terrenos de uma só vez. Poucas bandas conseguem essa sintonia, o que acham?

Tentamos criar um clima de leveza e tranquilidade. É muito importante ouvir todos os membros, tentar conciliar as ações comumente e deixar que cada integrante acrescente sua experiência e suas referências na hora de tocar juntos. E temos consciência da dificuldade de se fazer música, ainda mais experimental. Outro fator importante, todos adoram tocar o que fazemos.

Como a Madame vê a critica social feita por meio da música?

Acreditamos que não só a música como outras formas de expressão artística e cultural, podem ser críticas e questionadoras de várias situações contemporâneas sociais e políticas, falar de si e do mundo ao mesmo tempo, do cotidiano e da vida, e ainda serem divertidas e instigantes.



Voltando no tempo, o primeiro álbum demo ‘’Duchamp C’est La Vie’’ foi lançado em (2009). Vocês percebem mudanças na sonoridade durante esse período?

Muitas mudanças. Principalmente porque descobrimos e aprendemos com o tempo, nosso próprio jeito de produzir nossas músicas e de expressar nossas ideias, do nosso jeito. Ainda somos artesãos, mas aprimoramos nossa produção musical qualitativamente. Ainda teremos muitas descobertas durante os percursos daqui pra frente.



Por que o disco se chama ‘’Carnaval dos Bichos’’?

Tínhamos um conceito para o álbum, mas só quando terminamos é que nomeamos. São muitas referências, entre elas a Revolução dos Bichos (Animal Farm) de George Orwell, e um acontecimento anarquista que rolou de 2002 a 2008, aqui em Belo Horizonte, chamado Carnaval Revolução, que reunia pessoas para discutir novas maneiras de pensar a vida.


O disco foi todo gravado em casa? Como rolou?

Tudo artesanalmente produzido em casa. As gravações de quase todos os álbuns, exceto os bootlegs, foram feitas no apartamento da Ana Mo, sede do Colégio Invisível, nome do nosso coletivo. Usamos uma mesa de quatro canais e um gravador digital tascam. O resto todo é feito através de softwares de edição de som e pela Internet, agora que o TucA, nosso vocalista e um dos produtores, mora em São Paulo.

Falando um pouco sobre as composições, todos contribuem ou tem parcerias com outras pessoas?

A maioria das composições e da produção musical é do Lacerda Jr e do TucA. Algumas composições tiveram dedos do Alex Pix e de parcerias como do Thiago “Porquinho” (UDR, Fodastic Brenfers, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, FadaRobocopTubarão) e do Luiz Gabriel Lopes (Graveola e o Lixo Polifônico, TiãoDuá), entre outros comparsas incríveis. Mas para os shows, os arranjos foram reelaborados coletivamente, todos os integrantes interferem no som. As canções ao vivo sempre sofrem mutações.

Foto: Nereu Jr     
Em 2014 a Madame participou da coletânea Rolê: New Sounds Of Brazil do site Mais um Discos. Contem como foi? Vocês conhecem a cena autoral paraense?

Fomos convidados pelo Lewis Robinson da Mais Um Discos, selo que divulga muito a música contemporânea brasileira. O melhor de tudo foi conhecer outras bandas da novíssima cena musical brasileira. Além de estarmos juntos com estes nomes e de outros artistas mais reconhecidos, como o Arnaldo Antunes. Além do Pinduca, admiramos e temos influência direta dos mestres da guitarrada paraense. Atualmente conhecemos a música do Felipe Cordeiro, da Gaby Amarantos e gostamos muito do som produzido pelo duo Strobo.



Como é o cenário da música independente em BH?

São muitas facetas, experiências, gêneros e ações. A efervescência é grande. Conhecemos muitos grupos e artistas da cena mineira. Inclusive já fizemos muitas parcerias. São muitas bandas que curtimos: Lupe de Lupe, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, Picnic no Front, Dead Lover's Twisted Heart, Barulhista, Sara Não Tem Nome, Graveola e o Lixo Polifônico, Lise, Pausa Para, Constantina, Fodastic Brenfers, Carmem Fem, Pequena Morte, Fusile, Renegado, The Junkie Dogs, Iconili, Absinto Muito, Dibigode, entre tantas outras pérolas.

Além do formato virtual existe a ideia de lançar alguma coisa em formato físico, tipo fitas K-7, Vinil como algumas bandas vêm apostando?

Sim, começamos a pensar em produzir um álbum de estúdio e uma compilação, que inicialmente a ideia é lança-los em todos os formatos.

Quais os próximos passos dos Duchampianos? Para 2015 o que podemos esperar da Madame Rrose Sélavy?

Uma turnê brasileira e no exterior também. Produzir mais um álbum caseiro para lançar no próximo ano. Além de iniciar os planos de um futuro álbum gravado em estúdio com a formação atual da banda e convidados, revisitando antigas canções e algumas inéditas.

Considerações finais, falem o que quiserem, o espaço é de vocês.

Lutamos pelo direito de celebrar a vida, mesmo com todos os seus atropelos. Não temos medo, não nos assustamos. Porque o sonho segue nossa boca. Quando estiver só ou mal acompanhado, plugue nossa música e viaje no eletro frevo bossa punk da mme. Muita poesia nos corações alheios!


Carnaval dos Bichos e todos os outros álbuns podem ser baixados AQUI 

Nenhum comentário:

Postar um comentário